Grand Mercedes 600

Francisco Costa | | 3 Comentários | 2161 Visualizações

grand mercedes 600

Muito possivelmente um dos mais belos e sofisticados carros de todos os tempos, o Grand Mercedes 600 apresenta-se perante nós com uma aura de distinção e realeza que excede até os mais luxuriosos devaneios do automobilismo moderno.

O protótipo surgiu em 1963, em 1964 a produção deu os seus primeiros passos (4 viaturas). Sendo um carro que resistiu à prova do tempo e conseguindo afirmar-se como um veículo atemporal, é fácil percebermos e não só pelas suas linhas o porquê de em 1972 já se terem produzido cerca de 600 variantes, (e digo variantes ao contrário de veículos para realçar o grau de customização possível), de 1972 até 1981 a produção continuou, porém, a um ritmo mais modesto, tendo alcançado 2677 unidades vendidas.

Os motivos por detrás do abrandamento da produção foram simples, a crise dos combustíveis (é fácil de perceber que um carro de 3000Kg não é dos mais económicos), mas acima de tudo a introdução de novos Class S que sendo mais baratos mas ainda assim com elevado pedigree tiraram muitas vendas ao 600.

O 600 era vendido em duas versões base, a Short Wheel Base (SWB) e a Long Wheel Base (LWB). Os comprimentos variavam de 5.45m a 6.24m, os pesos vazios e carregados de ambas as versões eram 2600Kg-3050Kg (SWB) e 2770Kg-3340Kg (LWB). (No caso de veículos blindados os pesos excediam estes valores por algumas centenas de quilos).

grand mercedes 600

Note-se o comprimento do 600 em comparação com o Maybach, a marca de luxo da Mercedes

A versão SWB consistia num veículo de chassis mais curto com 4 portas, (sem contar com a bagageira), que poderia ter ou não uma divisória (janela em vidro hidraulicamente amovível) a separar a traseira. Todos os SWB tinham a traseira fechada excepto um único exemplar (1967) pertencente ao conde Berckheim (ex-piloto de corridas).

Esta versão era normalmente comprada por pessoas que pretendiam conduzir em vez de ser conduzidas.

A versão LWB era caracterizada pelo seu imponente comprimento, e pela possibilidade de possuir 4 ou 6 portas. Todos os LWB traziam duas filas de bancos na traseira, a primeira fila podia ser orientada no sentido tradicional ou face a face com a fila traseira conforme pedido no acto de compra.

grand mercedes 600

Dentro da versão LWB existia ainda a opção de ser Landaulet, como vemos na 1ª foto, a traseira era descapotável o que permitia uma maior exposição ao público da personalidade ilustre que seguia no veículo.

Foram construídos 2190 veículos SWB, 487 LWB dos quais 59 Landaulet.

Passando agora para a parte mais interessante, vamos falar um pouco do seu motor e dos seus gadgets.

grand mercedes 600 motor

A nível de motorização não havia muito por onde escolher, era obrigatória e necessariamente um motor de 6329cc V8 (com injecção mecânica Bosch) a gasolina que debitava 300hp e uma Vmax de 205Km/h.

No arranque dos 400m este carro ganha a um 230SL (desportivo de referência da época, e falo por experiência que já me “piquei” com um, eles andam e curvam mesmo muito bem).

Este motor possibilitava um arranque 0-100Km/h em 9.7 segundos.
Às rodas chegavam 250hp, os 50 restantes eram para o poderoso sistema hidráulico que dava vida ao carro (claro que alguns eram também perdidos pela caixa automática de 4 velocidades e pelos diversos atritos).

grand mercedes 600 motor

Para os mais curiosos uma pequena tecnicalidade, com uma taxa de compressão de 9.00:1 os 250hp eram atingidos às 4000RPMs e o motor possuía também um generoso binário de 500Nm a partir das 2800RPMs o que era (e é) excelente para um motor de 1963. A rotação máxima rondava as 4800RPMs.

Com todos estes exorbitantes números e o “pouco” peso, conseguia-se um económico consumo de 26l/100Km, assumindo a mais económica das conduções como é lógico…

Apesar de tudo, e vendo bem as coisas, 26 litros nem é nada mau dado o peso e a performance do motor, também há que entender que os consumos naquela altura eram bastante diferentes dos de hoje em dia…não era declaradamente um carro para pobres, mas a meu ver, também não era pelos consumos que era a morte do artista… ao fim e ao cabo, se formos ver os carros actuais deste segmento não acredito que os consumos sejam muito diferentes…

grand mercedes 600 motor

Deixando o motor para trás, vamos agora falar sobre os diversos aspectos técnicos que conseguiram transformar uma banheira num autêntico ícone do automobilismo.

Como qualquer condutor pode imaginar ter 3000Kg, ou qualquer peso perto destes valores, a circular a 100Km/h não é muito complicado, basta ver os camiões…

Porém, há 3 coisas que são comprovadamente complicadas de fazer com 3000Kg…

A primeira é chegar aos 100Km/h, porém, o motor especialmente criado para o 600 resolveu (e bem!) o problema.

A segunda é fazer parar os 3000Kg, se acham que parar a 100 já é difícil, imaginem a 200.

É aqui que entram os travões, discos às 4 rodas (e gostava de realçar que em 1963 a visão de um disco era raríssima) os discos da frente eram ventilados e possuíam dois travões por disco! Os de trás eram maciços e possuíam um travão por disco. Há também que salientar um importante facto, os travões eram assistidos por servofreio, para os desconhecedores é o mecanismo que cria o toque leve do pedal do travão nos carros actuais, até se houve o ar a sair se carregarmos no pedal a fundo. Experimentem um carro sem este sistema e testem a vossa forma física com travagens sucessivas…

E por fim, a terceira coisa que é complicada de fazer com 3000Kg, curvar. O acto de andar em linha recta com 3000Kg é simples, aliás é quase condição necessária dada a elevadíssima inércia…

grand mercedes 600

Por este preciso motivo, a inércia, e pelo requisito “conforto” uma suspensão convencional não servia para este carro. Por isso, os brilhantes engenheiros da Daimler-Benz criaram uma suspensão hidráulica auto-nivelante, esta suspensão, assim como outros aspectos posteriormente enumerados, era controlada por um poderoso sistema hidráulico que funcionava a 150bar (150Kg/cm2).

grand mercedes 600 volante

Esta suspensão estava tão à frente do seu tempo que a rigidez era ajustável numa manete do lado esquerdo do volante, num botão no lado inferior esquerdo do tablier era possível aumentar a altura ao solo em 50mm quando as condições da estrada assim o exigissem.

grand mercedes 600

Quando o carro ficava parado por longos períodos de tempo, o sistema perdia pressão e a suspensão descia dando um aspecto “low rider” ao carro, mas sempre sem perder a classe.

grand mercedes 600 volante

Esta sofisticada suspensão permita que um carro de 3000Kg, nas palavras de um piloto da altura, curvasse melhor que os carros desportivos da época.

grand mercedes 600

Àqueles que ainda estão a ler, antes de mais, peço desculpa pela extensão do artigo, mas eu acho que o que é bom é para ser dito, e este carro tem muito de bom…

Como o leitor já se pode ter apercebido, neste carro o custo não era objecção e o derradeiro objectivo era a perfeição e o conforto.

Por isso mesmo, o sistema hidráulico dava vida à capota (nos Landaulet), ao tecto eléctrico, nos que o tinham escolhido como opcional, aos vidros, aos 4 assentos (sim 4, os 2 da frente ajustáveis verticalmente, horizontalmente e nas costas, e ao banco corrido de trás (2 assentos) ajustável nas costas).

É importante realçar que o sistema hidráulico é algo completamente silencioso, o que fazia com que o acto de abrir ou fechar uma janela também o fosse, abrir uma janela neste carro não cria aquele barulho irritante do elevador eléctrico como nos carros de hoje.

O sistema hidráulico também abria e fechava as portas com um toque nos puxadores, incluindo a bagageira, e também assistia tanto a direção como a regulação do volante em profundidade e altura, é também de realçar que os sistemas “hill-hold” (nas subidas tiramos o pé do travão e este fica accionado até fazermos o arranque) que hoje começam a aparecer nos carros se iniciaram com este mesmo veículo, o travão de mão (accionável com o pé como em qualquer bom mercedes) desengrenava automaticamente quando o carro arrancava, ou com uma pequena alavanca caso desejado.

Um dos requisitos originais era a total eliminação de esforço físico tanto ao condutor como passageiros, daí terem chegado ao extremo do pneu suplente ser assistido por uma mola aquando da remoção do porta-bagagens.

Uma vez que era um carro altamente personalizável, com versões presidenciais inclusive, existiam uma infinidade de extras que são impossíveis de enumerar, no fundo era chegar à mercedes, dizer o que se queria, e eles tratavam de o fazer, ainda assim, o A/C opcional era possível regular individualmente à frente e atrás.

Um dos extras, avanço desde já, era um bar, situado na consola central da secção traseira nos SWB ou atrás do apoio de braço do banco corrido nos LWB.
Era possível ter um telefone, e penso que o que Salazar teve (já esteve exposto no museu da electricidade) tinha até televisão.

Apesar dos muitos extras como já deu para perceber só pelas funções do sistema hidráulico, o carro vinha muito equipado de série, trazia cortinas na secção traseira, mesas/escrivaninhas rebatíveis, vidro traseiro electricamente aquecido (algo comum hoje mas raríssimo na altura), o A/C era automático na regulação do fluxo, o carro possuía 4 sensores de temperatura no interior (o mesmo número de regulações diferentes possíveis no carro), e uma pequena curiosidade, a ventoinha de arrefecimento do radiador também era activada pelo sistema hidráulico!

grand mercedes 600

A segurança não foi descurada na concepção, tanto na travagem, como nas zonas de amortecimento activo (crumple zones) em caso de embate, como na primeira direcção do mundo desenhada para se partir e dobrar (crumple zone) com um amortecedor de impacto incorporado desenhado para impedir que o volante subisse contra o condutor em caso de embate, a segurança esteve sempre presente no desenho do carro, e é precisamente por esse motivo que caso o sistema hidráulico falhasse, o carro continuava a ter travões, direcção, arrefecimento de radiador e suspensão funcional, tudo graças a um compartimento de reserva no sistema hidráulico precisamente concebido para evitar que o carro se descontrolasse (lição aprendida pelo DS da Citroën que quando a hidráulica falhava, não havia travões, direcção assistida nem suspensão para ninguém…)

Todas as janelas eram construídas com vidro de segurança e as janelas laterais e frontal estavam equipadas com um sistema anti congelamento.

Acabo assim a minha “pseudo-palestra” sobre os aspectos técnicos deste extraordinário automóvel e deixo apenas umas imagens para poderem apreciar a beleza, pois essa, não cabe em palavras.

grand mercedes 600

Nesta imagem podem-se observar os comandos hidráulicos na porta do condutor que controlavam os vidros da frente e o tecto, o botão avantajado controlava a luminosidade do interior do carro, pode-se também ver no topo da parte beije da porta o comando do espelho retrovisor. Os botões imediatamente acima dos pedais eram a pega que libertava o travão de mão, e o botão que elevava a suspensão 50mm

grand mercedes 600

grand mercedes 600

grand mercedes 600

grand mercedes 600

grand mercedes 600

E assim acabo o meu artigo com uma fotografia daquela que é uma das traseiras melhor desenhadas na história do design automóvel.

Porque é um carro que excedeu todas as expectativas, todos os luxos, todas as tecnologias e acima de tudo, porque ainda hoje nenhum carro foi capaz de conjugar looks, luxo, performance e tecnologia com a sobriedade que este mercedes demonstra, é para mim o carro mais completo de todos os tempos.

3 Comentários

  1. jprcsilvaa

    A cada linha dava-me gosto de ver a seguinte! Parabéns e concordo!!
    ”o carro mais completo de todos os tempos.” andei tempos e tempos até desistir de saber muito acerca deste veículo. Obrigado, mais uma vez parabéns e que venham mais destes!!

Inicie sessão ou registe-se para comentar.